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O homem cansado é outro homem

  • Foto do escritor: Daniel Montserrat
    Daniel Montserrat
  • há 7 horas
  • 2 min de leitura

Onze e meia da noite. Telefone na mão. Mensagem pronta. O dedo passa por cima do botão de enviar.

Pausa.

Eu já tinha aprendido essa lição no tatame, mas tinha esquecido fora dele.

No tatame, o cansaço fala primeiro

Quem treina há tempo sabe. Você chega na academia exausto, faz dois rounds, e o terceiro entrega outro homem dentro do kimono. As pegadas ficam moles. O quadril não sobe. Você toma estrangulamento numa posição que dorminda você passa de olhos fechados.

Não é falta de técnica. É outro corpo. E outro corpo decide diferente.

Por isso quem treina sério ajusta o jogo quando chega cansado. Roda menos. Foca em recuperação. Não tenta provar nada num quarto round que o corpo não tem.

Fora do tatame, a gente esquece

A regra é a mesma fora. Mas a gente esquece.

A mensagem mandada brigando às onze da noite. O sim que virou três projetos numa quinta-feira de fim de mês. A compra no carrinho às duas da manhã. O email enviado com farpa que pareceu firmeza na hora e virou pedido de desculpa de manhã. A frase no jantar que abriu uma briga que o casamento ainda não fechou.

Nenhuma dessas decisões era sua. Era do homem cansado. E o homem cansado tem assinatura diferente.

Cansaço tem três rostos

Fome é um. Sono é outro. Raiva é o terceiro.

Cada um aperta o gatilho de um erro diferente. Faminto, você compra. Sem dormir, você manda. Irritado, você fala demais. Quando os três aparecem juntos no fim de um dia comum, sai do quarto qualquer homem que não pediram autorização pra estar ali.

A pergunta nunca é "isso é a coisa certa a fazer?". A pergunta é "qual versão de mim tá decidindo agora?".

Adiar é técnica

A solução é antiga e parece simples demais pra ser levada a sério: não decida nesse estado.

Não responda. Não envie. Não compre. Não confronte.

Come, dorme, ou treina. Resolve o estado primeiro. Depois você assina.

Quase toda vez que adiei uma decisão difícil pro dia seguinte de manhã, ela foi mais limpa. As poucas vezes em que ela continuou parecendo certa depois de uma noite de sono, eu sabia que era a coisa.

Adiar não é covardia. É reconhecer que decisão pesada precisa do homem inteiro pra carregar — e o homem cansado não é o homem inteiro.

A pessoa que assina

Volto pra mensagem pronta na tela.

Coloquei o telefone na mesa. Apaguei a luz. No outro dia respondi em três frases curtas — direto, sem farpa, sem o peso emocional que tinha às onze e meia.

Não foi disciplina heroica. Foi só lembrar de uma regra que o tatame ensina toda quinta à noite. Quando o terceiro round chega, o corpo avisa que outro homem está rolando ali.

A maturidade adulta é mais ou menos isso. Reconhecer que você não é uma pessoa só. E proteger o homem da manhã do homem da meia-noite.

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