Como escolher sua academia de jiu-jitsu: o guia honesto que eu queria ter em 2012
- Daniel Montserrat
- há 7 dias
- 5 min de leitura
A escolha da academia define os primeiros três anos do seu jiu-jitsu. Os primeiros três anos definem se você vai ter um décimo.
Em 14 anos de jiu-jitsu eu passei por cinco professores em duas cidades. Comecei em 2012 com o mestre Rodolfinho, multicampeão de jiu-jitsu e excelente professor. Saí da academia dele não por escolha — porque o horário deixou de bater com a minha faculdade. Foi a primeira de quatro trocas forçadas pela vida.
Treinei com o mestre Fio, faixa preta casca grossa do João Roque e lutador de MMA, na academia onde eu malhava. Peguei a azul com ele, antes dele se mudar pros EUA. Depois vieram alguns anos com o mestre Paulinho, faixa preta old school formado pela Academia do mestre Juquinha — uma das escolas mais tradicionais de Brasília. Saí porque a sede dele mudou de lugar e ficou quase uma hora da minha casa. Voltei pra academia onde o Fio dava aula, agora com o professor João Renato, da Equipe Barreto. Foi ali que eu encontrei minha casa em Brasília. Lembro daqueles anos com muito carinho. João Renato me graduou faixa roxa, depois de cinco anos na azul.
Em 2018 eu e minha esposa mudamos pros Estados Unidos. Aqui em Sarasota conheci o sensei Jeremy Harris, faixa preta de linhagem Saulo Ribeiro e Xande Ribeiro — lendas do esporte. Com ele meu jiu-jitsu foi transformado. Sensei Harris me graduou faixa marrom e, em junho de 2025, faixa preta.
Cinco academias. Cinco professores. Quatro trocas, nenhuma por estratégia — todas por força externa. Em cada troca, a qualidade da escolha seguinte decidiu se eu ia continuar ou parar. É a decisão mais subestimada do jiu-jitsu de iniciante. Erra a próxima e você não chega na azul. Acerta e o esporte continua compondo por uma década.
Se você está escolhendo academia agora, ou pensando em trocar, aqui está o filtro que eu desenvolvi olhando pra trás — o guia que teria me poupado tempo nas trocas em que demorei pra acertar. Não é checklist de localização, preço e professor. Esses fatores importam, mas importam menos do que se diz. Importa outra coisa.
1. Visite sem treinar
O erro mais comum de iniciante é chegar numa academia, pedir "aula experimental", e tentar avaliar o lugar enquanto está fisicamente ocupado em não morrer. Você não vai ver nada. Vai só sobreviver.
Faça o contrário. Visite sem treinar. Sente na beira do tatame por 20 minutos e observe.
Olhe pros faixa brancas. São o grupo que você vai ser por pelo menos dois anos. Eles estão sendo ajudados? Estão treinando entre si mesmos ou estão integrados com faixas mais altas?
Em academia boa, o faixa preta treina com faixa branca. Não por condescendência — porque é didático pros dois lados. Em academia ruim, o faixa preta só treina com marrom e roxa. Os brancos ficam entre si, aprendendo um com o outro, o que é como alfabetizar usando outros analfabetos.
2. Escute o som do tatame
Academia boa tem silêncio funcional. Pessoas respirando, alguns tatames batendo, voz baixa do professor corrigindo posição.
Academia ruim tem grito, música alta, risada constante, e pessoas batendo palma quando alguém finaliza. Isso último é bar. Bar é ótimo pra beber cerveja. É ruim pra aprender mecânica.
Não é uma regra absoluta — algumas academias boas têm música de fundo —, mas se o som do ambiente for de evento, fuja. Jiu-jitsu é um esporte que se aprende em concentração, não em estímulo.
3. O professor famoso não é o melhor professor pra você
Esse talvez seja o conselho mais útil e mais ignorado. Se você mora numa cidade com várias academias, vai existir o "professor famoso" — o cara de campeonato mundial, o atleta profissional, o nome grande.
Na maioria das vezes, ele é ruim pra iniciante.
Não por falta de capacidade técnica. Tem sobra. O problema é que ele está focado nos atletas que competem pela academia. A aula de iniciante é dada por um faixa roxa que ele delegou. Você está pagando o nome e recebendo o estagiário.
O professor que importa pra você nos primeiros três anos é um faixa preta que gosta de ensinar faixa branca. Que fica na aula inteira, não entra no meio do warm-up e sai antes do final. Que corrige sua postura em vez de te mandar treinar mais.
Esse cara raramente é o nome grande. Ele está dando aula numa academia menor, com estrutura mais simples, no bairro em que você nunca pensou em ir.
4. Fuja da academia que vende demais
Sinal de alerta claro: a academia que faz promoção agressiva. "Primeira aula grátis, matrícula zero, vem conhecer." Tudo bem quando é convite casual. Fica esquisito quando vira a mensagem central.
Academia boa não precisa vender. O tatame está cheio porque as pessoas indicam pra amigo. Quando você pergunta preço, eles respondem direto, sem "agora tem uma promoção especial até sexta".
A mesma lógica vale pra quando o professor fala demais sobre resultado. "Você vai ficar forte, vai aprender defesa pessoal, vai mudar sua vida, em 6 meses você vai estar outro homem." Isso é script de coach. Jiu-jitsu bom não promete nada disso. Ele só promete que, se você aparecer, o corpo e a mente vão mudar. O resto é consequência.
Promessa é posição inferior disfarçada de entrega. Academia boa entrega a mercadoria e espera você perceber.
5. Onde todo mundo é faixa preta, cuidado
Parece contra-intuitivo, mas se você entra numa academia e metade das faces já é faixa preta, tem algum problema.
Ou a academia é só pra atleta avançado — o que significa que, como iniciante, você vai ser ignorado ou atropelado. Ou a academia tem uma inflação de faixa, onde todo mundo virou preta em seis anos, o que compromete o valor técnico da faixa ali.
Academia saudável tem pirâmide: muita faixa branca, bastante azul, algumas roxas, poucas marrons, ainda menos pretas. Essa pirâmide é sinal de que a academia recebe iniciante, retém iniciante, e promove com calibre.
6. A cultura se revela no vestiário
Último teste, e o mais infalível: passe cinco minutos no vestiário depois de uma aula.
Se as pessoas estão conversando, trocando uma história de trabalho, perguntando da família, ensinando algo técnico em voz baixa — você está num lugar com cultura.
Se o vestiário é silencioso, tenso, cada um no celular, saindo sem se olhar — você está num lugar onde a relação é transacional. Não é necessariamente ruim. Mas você não fica 10 anos ali.
Jiu-jitsu é uma comunidade. A parte técnica é talvez 30%. O resto é quem você vai ver, em média, três vezes por semana, nos próximos 10 anos. Se essa galera não te interessa, mude.
O que eu faria hoje
Se eu fosse começar de novo em 2026, aqui seria o caminho:
Listaria as 4-5 academias dentro de 30 minutos de casa. Visitaria as cinco. Sentaria na beira do tatame em cada uma por 20 minutos. Aplicaria os testes acima. Eliminaria duas no primeiro filtro.
Das três que sobrassem, treinaria uma semana em cada. Não na aula de iniciante — na aula de faixa branca geral, que é onde você realmente vai viver.
Só depois escolheria. E não escolheria pela mais próxima, mais barata, ou mais famosa. Escolheria pela que, saindo do tatame, eu tivesse mais vontade de voltar no dia seguinte.
Esse é o único filtro que importa no longo prazo. Porque voltar no dia seguinte é o jogo inteiro.



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