O que cada faixa me tirou
- Daniel Montserrat
- há 7 dias
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Em 14 anos no tatame, cada faixa me tomou uma coisa que eu achava que era minha. Aqui estão as cinco.
Jiu-jitsu não é sobre o que você ganha. É sobre o que você aceita perder.
Essa é uma coisa que ninguém diz na primeira aula, porque faria metade dos iniciantes desistir antes da terceira. Mas é a verdade central do esporte. Cada faixa te tira algo que você achava que era seu. O que sobra, depois de 14 anos, é mais leve. E é a razão pela qual eu ainda apareço.
Branca — tira o ego
Você chega no tatame achando que tem algum crédito. Altura, força, velocidade, uma academia que você frequentou por seis meses na adolescência, umas aulas de muay thai, qualquer coisa.
Na segunda aula um cara 15 kg mais leve e 20 anos mais velho te abraça pelas costas e te coloca pra dormir. Literalmente. Você acorda na beira do tatame achando que foi calor. O cara sorri e pergunta se você tá bem. Ele não está te humilhando. Pra ele, aquilo foi um round normal.
A faixa branca tira a ideia de que você chega com qualquer crédito pré-aprovado. Você chega com zero. O zero não é ofensa. É o ponto de partida correto.
Quem não aceita isso vai embora em três meses e volta pra academia de musculação. Não porque o jiu-jitsu seja cruel. Porque é honesto.
Azul — tira a ilusão de atalho
Faixa azul é o primeiro degrau que soa como "cheguei em algum lugar". Você já passa guarda, monta, finaliza alguns brancas com confiança. Começa a achar que descobriu o jogo.
Aí você entra num campeonato intermediário e descobre que o que você chamava de jogo era o alfabeto. Que tem gente ali que leu livro, escreveu livro e virou professor de literatura enquanto você ainda soletrava.
A faixa azul tira a fantasia de que existe um truque. Que tem uma técnica secreta, um professor mágico, uma suplementação. O truque não existe. O que existe é repetição. O que existe é 2.000 rolagens que você ainda não fez.
Essa foi a faixa que quase me fez parar. Não porque foi ruim. Porque ficou claro o tamanho do que ainda faltava. É a faixa em que mais gente larga o esporte — e, do ponto de vista de honestidade intelectual, largar na azul é até coerente. Quem fica, fica porque decidiu que a repetição em si é o que importa.
Roxa — tira a pressa
Roxa é a faixa em que você começa a entender o jogo de verdade. E o primeiro sinal de que você entendeu é parar de ter pressa.
Antes: você queria finalizar rápido. Forçava passagem, gastava força, perdia posição, recomeçava. O round era uma sequência de tentativas.
Depois: você se senta em cima da montada e espera. Cinco segundos. Dez. A pessoa se mexe. Você usa o movimento dela contra ela. Você gastou um quinto da energia e ganhou posição melhor.
Essa inversão — de acelerar pra esperar — é um dos movimentos mais importantes que o tatame me ensinou. E o mais difícil de transferir. Porque tudo fora do tatame aponta pra pressa: trabalho diz "resolva agora", relacionamento diz "responda agora", o corpo diz "reaja agora".
Saber quando não fazer nada é uma habilidade técnica. Faixa roxa é onde ela começa a virar instinto.
Marrom — tira a identidade baseada em progresso
Faixa marrom é estranha. Nos primeiros anos no tatame, você se mede por avanço: aprendi X, passei a guarda Y, ganhei torneio Z. Cada progresso é recompensa.
Quando você chega na marrom, o progresso fica invisível. Você pratica um detalhe por seis meses e só percebe que incorporou quando alguém comenta — e você esquece de novo até o próximo comentário. O ritmo de avanço desacelera de forma que, se você se definir pelo progresso, você colapsa.
Essa faixa tira a identidade baseada em "eu sou alguém que evolui". Obriga você a gostar do treino em si. Do ritual. Do cheiro do tatame, do som da dobradura do kimono, da conversa de cinco minutos antes da aula começar.
Se você não gostar disso, não chega na preta. Os caras que chegam na preta por motivação externa — prêmio, status, prova — somem nos primeiros dois anos como preta. Quem fica é quem aprendeu a gostar do dia neutro.
Preta — tira a ideia de que chegou
Na primeira aula como faixa preta, depois de 13 anos chegando, eu entrei no tatame e não aconteceu nada. Nenhuma cerimônia, nenhum momento. Alguém disse parabéns e a gente começou a treinar. Na mesma noite, um faixa marrom me passou a guarda como se eu fosse branca de novo.
A faixa preta tira a ideia de que a faixa preta significa algo. Vira só a camiseta que você veste. O jogo é o mesmo. A diferença é que você não pode mais fingir que é iniciante.
Aqui está o que eu não esperava: a faixa preta me aliviou. Durante 13 anos eu tive uma referência à frente — uma próxima faixa, um próximo nível. Quando isso acaba, o que sobra é o tatame em si. E o tatame em si é suficiente.
O que sobrou
Se eu somar as cinco coisas que as faixas me tiraram — ego, atalho, pressa, identidade baseada em progresso, a ideia de que se chega em algum lugar — sobrou uma coisa só: o round de hoje.
Essa é, pra mim, a definição operacional de liberdade. Não ter que performar pra uma próxima faixa. Não ter que provar pra ninguém. Acordar, ir pro tatame, trocar alguns suspiros com os faixa brancas que estão começando, e treinar por 40 minutos.
Conforto no desconforto não é frase de motivação. É o que sobra quando o resto foi tirado.



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