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Três coisas que o jiu-jitsu me ensinou e que eu demorei a aplicar fora dele

  • Foto do escritor: Daniel Montserrat
    Daniel Montserrat
  • há 7 dias
  • 4 min de leitura

Três princípios do tatame que só viram segunda natureza quando a vida me forçou. Nenhum deles funciona como citação de Instagram.

A parte mais irônica de levar 14 anos num esporte é que você aprende as lições dele muito antes de conseguir aplicá-las fora dele.

Tem coisa que eu entendi no tatame em 2015 e só consegui aplicar no trabalho, no casamento, ou na forma como administro dinheiro, em 2022. Não por falta de lucidez. Por resistência. O cérebro fora do tatame acha que as regras são outras. Demora pra perceber que não são.

Três lições que esse atraso me cobrou. Escolhi as três que mais me custaram.

1. Gastar menos energia é vencer

No jiu-jitsu, quem gasta mais força, perde. Isso é contra tudo que um homem aprende na cultura em que a gente cresce, onde força vira sinônimo de empenho e empenho vira sinônimo de virtude.

Tatame desmonta isso rápido. O cara mais forte da academia quase sempre é o que fica três minutos fora do ar no primeiro round. O velho de 55 anos que respira pelo nariz, move meio metro por vez e parece estar quase parado é quem finaliza 20 rounds seguidos.

A primeira vez que um faixa marrom me disse "relaxa" enquanto eu tentava passar a guarda dele, eu achei que era sacanagem. Era técnica.

Demorei uns oito anos pra entender isso fora do tatame.

Exemplo concreto: discussão com a esposa. Meu instinto era explicar, argumentar, rebater. Cada explicação adicional gastava mais energia e, ironicamente, perdia mais posição. Um dia, por puro esgotamento, eu parei de argumentar. Fiquei em silêncio. A conversa se resolveu sozinha em três minutos. Não tinha a ver com quem estava certo. Tinha a ver com quem parava de gastar força primeiro.

O mesmo no trabalho. Eu já ganhei contratos importantes não por ter o melhor argumento. Por ter sido o último a falar. Por ter deixado o outro lado gastar força tentando me convencer de algo que eu ia aceitar de qualquer jeito.

Gastar menos energia não é preguiça. É técnica. E é uma das formas mais puras de auto-responsabilidade — porque gastar força é quase sempre reatividade, e reatividade é deixar o ambiente decidir por você.

2. Posição antes de submissão

Todo iniciante de jiu-jitsu quer finalizar. Chave de braço, triângulo, mata-leão. É o que aparece no YouTube. É o que chama atenção. É o que faz o cara querer começar a treinar.

Nos primeiros dois anos, o professor tenta ensinar o contrário: não procure submissão. Procure posição. Monte. Fixe. Controle. A submissão vem.

Essa inversão é o primeiro divisor entre quem progride e quem trava. E é a mais difícil de aplicar fora.

No trabalho, a gente quer resultado. O cliente novo, o contrato assinado, a promoção. Mas resultado é submissão. A posição é o trabalho invisível — o relacionamento mantido por dois anos, o email respondido em dia, a reunião em que você não vendeu nada e só escutou.

No corpo, é a mesma coisa. Quem vai pra academia em janeiro procurando "definir o abdômen" está indo atrás da submissão. Quem aguenta três anos de treino razoavelmente consistente construiu a posição. A definição aparece sem você pedir.

No dinheiro, idem. Investimento não é submissão — é juros compostos de 15 anos de posição.

Na criação de um filho, a mesma lei. Você não "finaliza" um adolescente com uma conversa épica aos 16. Você constrói a posição por 14 anos de cafés da manhã, perguntas genuínas no carro a caminho da escola, e silêncio compartilhado. A conversa aos 16 é apenas a finalização que o sistema permite — se a posição estiver montada.

Procurar submissão sem posição é o erro mais consistente que homens cometem em todas as áreas da vida. E é um erro de pressa — o mesmo que a faixa roxa me tirou.

3. Aceitar ser passado é a única forma de aprender

O movimento mais difícil de aceitar no jiu-jitsu é o de ser passado. Quando alguém passa sua guarda, você é literalmente dominado. Posição inferior. Sem saída imediata. Ego exposto.

Quem não aceita isso, não progride. Você vê em qualquer academia: o cara que só treina com faixas brancas, o cara que "não está se sentindo bem hoje" toda vez que um marrom aparece, o cara que bate antes de perder a posição porque "estava com dor no ombro". Esse cara trava na faixa azul. Não tecnicamente — emocionalmente.

Quem progride no tatame é quem aceita ser passado. Quem pede pra treinar com alguém melhor, sabe que vai ser dominado, e toma isso como fonte de informação. O outro sabe de algo que eu não sei. Eu quero saber.

Essa é a lição que mais demorei a transferir. Ela soa como humildade — mas é mais funda. É disposição de ser corrigido, exposto, mostrado como incompleto. Sem isso, não existe aprendizado real.

No trabalho, significa: pedir feedback direto de quem sabe mais. Não feedback simpático. Não uma avaliação anual. Uma pessoa, uma pergunta, uma resposta honesta.

No casamento, significa: deixar sua esposa te dizer, em detalhe, onde você está errando — sem se defender no meio da frase.

Com filhos, significa: aceitar que seu filho de 12 anos pode estar certo e você errado. Em uma coisa específica, numa conversa específica. E admitir isso na hora.

É tudo ser passado. É tudo posição inferior. E é o único jeito de sair dela melhor do que entrou.

A parte chata

Essas três lições não viram TED Talk. Não cabem em carrossel de Instagram. Elas funcionam porque operam devagar e contra o instinto.

Gastar menos energia vai parecer fraqueza por um tempo. Priorizar posição sobre submissão vai parecer que você está demorando demais. Aceitar ser passado vai parecer que você está apanhando na vida.

Nenhuma das três te dá sensação de vitória no curto prazo. É por isso que a maioria das pessoas não aplica. E é por isso que quem aplica, com o tempo, opera num outro nível.

Não tem pressa. Tem só repetição.

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